1900–1934 · Brasil

Ismael Nery

Modernismo brasileiro

Biografia

Ismael Nery (Belém, Pará, 1900 – Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1934). Pintor, desenhista, poeta. É uma das personalidades mais inquietas do modernismo brasileiro. Sem nunca delimitar seu campo de atuação, dedica-se à pintura e ao desenho, produz poemas e elabora reflexões teóricas.

Nasce em Belém e ainda na infância se muda para o Rio de Janeiro. Tudo indica que se aproxima das artes na juventude. Provavelmente, frequenta a Escola Nacional de Belas Artes (Enba), entre 1915 e 1916. É certo que em 1918 está entre os alunos matriculados na instituição. Nesse período, dedica-se à cópia em gesso de esculturas da Antiguidade greco-romana e desenvolve interesse pela figura humana, tema que iria tomar a maior parte de suas inquietações artísticas. Na Enba, faz aulas com Henrique Bernardelli (1858-1936), cujos incentivo e elogios o animam a seguir estudando arte.

Em 1920, Nery vai a Paris para estudar. Permanece na Académie Julian por três meses. Na Europa, entra em contato com o modernismo. Examina os quadros de artistas cubistas como Pablo Picasso (1881-1973), Georges Braque (1882-1963), André Lhote (1885-1962), Fernand Léger (1881-1955) e Jean Metzinger (1883-1956). Durante a sua permanência, conhece boa parte da tradição artística do velho continente. Além da Escola de Paris, tem grande interesse pelo expressionismo alemão. Na Itália, conhece as obras dos mestres do renascimento e se torna admirador da pintura desse período. Devota-se, sobretudo, a Ticiano (ca.1488-1576), Tintoretto (1518-1594), Paolo Veronese (1528-1588), Michelangelo (1475-1564) e Rafael (1483-1520). Tem interesse também por artistas italianos modernos, como Giorgio de Chirico (1888-1978).

Ao voltar para o Brasil, em 1921, é nomeado desenhista na seção de arquitetura e topografia da Diretoria do Patrimônio Nacional, órgão ligado ao Ministério da Fazenda. Lá conhece e se torna amigo do poeta Murilo Mendes (1901-1975), um dos seus grandes incentivadores. Um ano depois, casa-se com a poetisa Adalgisa Nery (1905-1980), musa de suas principais pinturas. Apesar de já trabalhar com formas modernas, o motivo de suas pinturas o diferencia do modernismo brasileiro da Semana de Arte Moderna de 1922. O artista não tem gosto por temas nacionalistas. Seus personagens aparecem em cenários imaginários, avessos a qualquer referência reconhecível. Ele trata, basicamente, da figura humana, idealizada, a serviço de uma figuração simbólica. Neste período, faz retratos, como as obras Retrato de Murilo Mendes (1922) e A espanhola (1923). A relação entre as partes claras e as partes escuras é bastante marcada.

Posteriormente, o artista dá tratamento mais geométrico a suas figuras. Em 1924, compõe seus personagens com cilindros e formas ovais. Os homens e mulheres se tornam mais alongados e estruturados. Dão a impressão de formas ideais, fora do tempo e do espaço. Ao seu expressionismo, soma-se a influência cubista. Na época, a casa do artista se torna um ponto de encontro de artistas e intelectuais cariocas. É frequentada, entre outros, por Mario Pedrosa (1900-1981), Murilo Mendes, Guignard (1896-1962) e Antonio Bento (1902-1988).

Em torno de 1926, expõe a alguns desses amigos a sua doutrina: o essencialismo. Um conjunto de princípios, ligados ao seu humanismo cristão, que seria a síntese de suas reflexões. Em 1927, o artista parte, com a esposa e a mãe, para a Europa, onde convive com Heitor Villa-Lobos (1887-1959) e conhece André Breton (1896-1966), Marcel Noll (1902-1937) e Marc Chagall (1887-1985). A viagem influencia profundamente sua pintura.

Volta da Europa particularmente impressionado com o trabalho de Chagall de modo que seus temas e personagens, a partir daí, aproximam-se dos do artista russo. Os corpos são pintados com cores mais vivas e aparentam mais leveza. A ação das suas pinturas ocorre em um plano onírico. No entanto, este tratamento se dá com base em relações que Murilo Mendes chama de “absolutas, definitivas e eternas”1, derivadas do essencialismo.

A partir de 1930, é constatada sua tuberculose e isso se reflete em suas pinturas. Suas figuras se tornam esgarçadas, aparecem com as vísceras abertas. Os personagens surgem em cenários vazios, nitidamente influenciados pela pintura metafísica italiana. Os personagens agora são flagelados e feridos. Seus trabalhos incorporam o tema da morte.

Daí em diante o artista trabalha menos. No entanto, sua produção tem maior projeção. Antes, porém, faz as suas únicas exposições individuais, a primeira em Belém e a segunda no Rio de Janeiro, ambas em 1929. Não chega a ter grande receptividade, mas consegue expor numa coletiva de pintura brasileira em Nova York, em 1930, e participar de importantes salões, como o Salão Revolucionário, no Rio de Janeiro, em 1931, e a Exposição de Arte Moderna da SPAM, em São Paulo, em 1933.

Doente, apesar de uma rápida melhora em 1933, o artista não resiste e morre, vitimado pela tuberculose, em 1934, num mosteiro franciscano. O reconhecimento ao seu trabalho ocorre postumamente, após sua participação nas edições de 1965 e 1969 da Bienal Internacional de São Paulo e de retrospectivas em 1966, no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (Mam Rio) e na Petite Galerie.

Em vida, Ismael Nery não se define como artista plástico. Sua pintura aparece como um nicho onde o artista formula parte de suas reflexões metafísicas, uma materialização de suas ideias sobre o que é necessário a todos os homens, universalmente, independentemente da época e do lugar.

Notas1. MENDES, Murilo. Recordações de Ismael Nery. São Paulo: Edusp. p. 27.

Obras no acervo